Durante alguns anos experimentando uma agradável convivência com tantas professoras e alunas com o tempo alguns pontos ficaram muito evidentes com relação aos grupos que tantas alegrias acabaram nos reservando. Algumas delas dizem respeito ao sobrepeso ou até a obesidade presente nas escolas e academias de dança e principalmente aquela modalidade a qual convivo há tantos anos, a dança do ventre.
Na análise dos grupos e também dos indivíduos, deparamos inúmeras vezes a alunas com sobrepeso ou mesmo obesas que possuíam muita vontade de trilhar os caminhos da dança. Porém, alguns limites transcendiam a vontade dessas meninas de se tornarem integrantes do grupo de dança da academia: figurinos que expunham um pouco mais o corpo das bailarinas; coreografias que exigiam movimentos que não se encaixavam ao perfil daquele corpo com sobrepeso; concursos de dança que classificavam o grupo pela homogeneidade física das bailarinas (corpos magros que esteticamente davam mais plasticidade às coreografias) e desempenho coletivo do grupo.
Infelizmente nossa sociedade altamente preconceituosa e volátil nos relacionamentos apesar das palavras de incentivo a essas mulheres com sobrepeso acabam provocando reações visíveis de preconceito social.
Apesar desse contexto não podemos excluir os benefícios que a arte acaba provocando nas suas praticantes e principalmente nos novos hábitos de saúde que devem estar acompanhados dos movimentos e exercícios físicos para o bom desempenho da dança.
Não muito distante se discutia de forma acalorada se só profissionais de educação física estariam aptos a dar aulas de dança do ventre, fato esse que discordo completamente já que a faculdade de educação física não tem o condão de fornecer a gama enorme de conhecimento acumulado por séculos no desenvolvimento da arte da dança do ventre em todas as suas modalidades, porém há um ponto a se destacar, dança do ventre trás qualidade de vida e não apenas do ponto psicológico mas físico também. Uma professora sem os devidos conhecimentos pode provocar danos físicos irreparáveis e segundo existe uma responsabilidade pelo bem estar físico como um todo das praticantes sob responsabilidade de uma professora.
Se a mulher busca na arte da dança do ventre uma melhoria da autoestima, a recuperação da feminilidade está na verdade buscando uma melhor qualidade de vida que abrange em seu cerne uma busca pela redução de peso e consequentemente controle sobre diabetes tipo II, hipertensão arterial e doenças coronarianas advindas disso, controle dos níveis de colesterol. Temos que entender as responsabilidades disso já, por mais que um corpo que deseja um novo nível de bem estar, essa mulher que procura a dança do ventre e a pratica é um corpo em movimento e busca permanecer o maior tempo possível assim, ou seja, mais do que um calculo de IMC. Tratamos de um ser humano que deseja expandir seus horizontes ao máximo com a ajuda da dança e das relações que dela nascem.
Há uma tendência nos dias de hoje que dificultam sobremaneira a forma de ver o contexto todo, como comerciais de TV que praticamente obrigam uma alimentação desprovida de qualidade, sucos e até o leite são substituídos por água gaseificada e refrigerantes a substituição dos alimentos tradicionais da cultura brasileira (arroz, feijão, carne, saladas, legumes e frutas) pelas dietas com alto valor calórico e nem sempre com adequado valor nutricional, acabam perpetuando o problema da obesidade nas academias. No sentido dado pela professora Regina Rovigatti Simões, “corpo é vida, é movimento e é sentimento, de certa forma, independentemente da sua condição física, social, cultural, econômica e política. O corpo, na sua completude e complexidade, é quem possibilita e permite ao ser humano estar presente em todo tempo e lugar vivendo todas as situações que porventura possam surgir; corpo é ser-no-mundo.”
A conclusão desse texto sobre a obesidade e a dança do ventre está num sentido amplo que a professora , consciente e preparada deve ter ante os desafios de uma sociedade dinâmica e em movimento. Não estamos ensinando dança a mulheres fechadas em recintos fechados ou em aldeias distantes no deserto, estamos ministrando aulas para mulheres dinâmicas incorporadas numa sociedade multifacetária e complexa, antes necessitando apenas de conhecimento técnico e estético hoje a profissional de dança deve ter conhecimento e profissionais aptos a orientá-la em outras áreas ligadas a atividade física e bem estar. Antes a agente de discriminação de arte se transforma na sociedade moderna como agente de qualidade de vida que envolve a saúde do corpo e mente.
Novos desafios exigem novos caminhos e novas descobertas.
Obesidade e a dança do ventre se adaptam para uma busca de uma nova realidade e de bem estar, saúde, alegria e arte. Um desafio para todos!
Autor: Carlos Crede
Nutricionista - São Paulo
carloscrede@hotmail.com

