Educação em Dança: Assuntos para se pensar!

Não tenho aqui a pretensão de ditar normas ou criticar quem quer que seja , mas apenas abrir um ponto de reflexão sobre os rumos que uma arte milenar de beleza inigualável pode vir a seguir em nosso país, da discussão e da troca de ideias podemos compreender melhor os processos relativos ao ensino da dança do ventre criando novos métodos e integrando informações para as futuras gerações.  

Inicio esse texto com uma reflexão profunda sobre os tempos atuais, a saber

” Vivemos numa época caracterizada pelo volume e grau de transformação produzida em todos os níveis do conhecimento. O pensamento científico, após varias revoluções que marcaram significativamente a história da humanidade, vem questionando a vigência de suas propostas, bem como a natureza dos seus métodos e fundamentos do seu fazer. Essas mudanças chegaram também para a filosofia, as religiões, as artes, a educação e suas instituições. Contudo, “concordam diversas interpretações em que os sistemas educacionais não se saíram bem nestes desafios, e que apresentam uma considerável rigidez nas suas estruturas, em seus métodos e conteúdos”. (RUZ, 1998, p. 98).”
 Torna-se claro que todas essas transformações atinjam nossa querida arte da dança do ventre no Brasil.

Tendo aportado em nossas terras na década de 1950 essa arte milenar encontrou campo fértil , expandiu, criou grandes personagens, pessoas maravilhosas e dedicadas que obtiveram prestigio internacional, sem necessidade de citar nomes. Porém, praticamente 70 anos se passaram e algumas coisas não prosperaram.

A questão da profissionalização não se fez o grande número de praticantes sem nenhum amparo técnico de reconhecimento acadêmico unificado, mesmo reconhecendo o trabalho e dedicação de algumas escolas, a necessidade de que todas as escolas tenham esse amparo é necessário e justificado para uma atividade profissional .

Óbvio não há donos da verdade em nenhum lugar o que existe é a necessidade em qualquer atividade profissional de bases que a sustentem. Regra geral, as profissões requerem competências especializadas e formais, que se costumam adquirir com uma formação universitária ou profissional. Os ofícios, no entanto, consistem em atividades informais ou cuja aprendizagem consiste na prática. Em alguns casos, de qualquer forma, a fronteira entre a profissão e o ofício é difusa. Aquele que exerce uma profissão é um profissional.

Esta pessoa tirou um curso e é titular de um certificado ou diploma que credita as suas competências para desempenar o seu trabalho. Das explanações acima vemos que o profissional difere da pessoa de ofício pelo fato de ter além da prática necessária curso que lhe confiram a teoria inerente a sua atividade profissional. Onde obtemos isso na dança do ventre? Quem possui tais certificados? E se os possui quem os forneceu?  Infelizmente para que o mercado se sustente essas perguntas deveriam ser feitas pelos alunos antes de ingressarem em alguma escola e colocarem seu desejo, suas esperanças e seu corpo na mão de alguém. E porque isso não é divulgado? Por que as profissionais não se integram e divulgam isso ao mercado para proteger o público e a si mesmas?



Um ponto a se pensar sobre isso seria a ainda pequena quantidade de produção acadêmica que suporte material a ser difundido. Conhecimento em nosso pais sobre dança do ventre existe em profusão, porém armazenada em pequenos nichos precisa ser pesquisada e compilada para a criação de grade acadêmica de ensino dessa arte e sua posterior criação profissional de forma reconhecida e legalizada.

Porém tenho o atrevimento de possuir preocupações pontuais a respeito e abro o questionamento a todos que quiserem dar suas opiniões de forma democrática e abrindo a discussão para maior esclarecimento de todos nós originando ideias que certamente trarão contribuições para o avanço de assuntos sobre o tema da formação do profissional da dança do ventre. A preocupação passa pela questão do curriculum necessário para essa atividade poder criar uma sistematização tanto da cultura artística quanto das práticas didáticas pautados nas noções contemporâneas sobre dança, corpo, e educação.  Os projetos existentes carregados de informações de alto teor qualitativo carecem ainda de características didáticas reconhecidas e estão carregadas das impressões pessoais, o que inviabiliza o acesso aos dados compilados por tais projetos de forma geral .

Tenho consciência  da complexidade dos fatos históricos que envolvem a dança do ventre no Brasil e, portanto, mesmo primando por certo cuidado na busca das informações aqui compartilhadas, não me isento de cometer alguma falha em tais apontamentos. Além do que, este intento tem também por função compartilhar informações para a análise da classe de dança do ventre recebendo críticas e sugestões que, certamente, poderão colaborar para um registro mais seguro historicamente.

Dentro do contexto analítico a dança do ventre em nosso pais contou desde o início com influencias do ballet clássico, influencia libanesa e muito de seu conhecimento inicial veio não de bailarinas, mas de músicos que aqui apresentavam seus shows em eventos abertos (restaurantes, casas de chá) ou fechados (clubes, festas). Esse nascer acabou aglutinando várias tendências ao longo dos anos tendo na década de 1990 algumas bailarinas incluído uma filosofia artística  e movimentos do jazz.

 Devemos ter a noção da riqueza artística que isso proporcionou a algumas bailarinas que conseguiram assimilar essas nuances e alçaram conquistas além de nossas fronteiras. Mérito exclusivo delas e de suas professoras, porém, sempre há um, porém, esse conhecimento não veio de forma única, através de um elaborado método didático, veio exclusivamente da busca em fontes isoladas e muitas vezes distantes. Apesar de hoje existirem inclusive trabalhos acadêmicos sobre a arte, além de extenso material de aprendizado em forma de dvd’s, cd’s, livros.

Falta uma uniformidade de metodologia visando extrair o máximo do aprendizado da praticante. Ressaltando não estamos falando de capacidade de bailarinas, isso esta mais que comprovado através dos anos, estamos nos focando nas formas de estudo, de ensino e de propagação da arte.

Apesar de todos os eventos, das inúmeras escolas e de tantas bailarinas de sucesso não conseguimos avançar do estágio instrumentalista da dança do ventre, não sendo suficiente para que a dança possa avançar nas discussões dos seus próprios problemas aumentando suas possibilidades de estudos sem o caráter restrito da abordagem de técnicas tradicionais.

 Recentemente criaram-se cursos de profissionalização com várias orientações e aulas de caráter profissional de relevância, mas novamente encontramos um problema na área especifica da orientação de dança do ventre, a metodologia.
Sem uma metodologia específica o ensino acadêmico de dança do ventre tem que estar atrelado a outras modalidades de dança, muitas delas com técnicas infinitamente distantes desta arte oriental.


Se concordarmos com Brzezinski (1998) que a metodologia cria em si mesma um currículo, este é um elemento da organização do processo educacional, um olhar atento sobre sua articulação dentro do próprio sistema educativo podendo deflagrá-lo como mediador na interação entre o sistema educacional e os anseios do público . Na mesma medida, tal relação se estende também na função do professor enquanto mediador entre os conhecimentos produzidos na realidade social e os conhecimentos elaborados na vivência educativa. Desta forma, as implicações no processo de formação do professor organizadas por uma proposta curricular, pode apontar diferentes maneiras de entendimento da relação teoria e prática, compreendidas neste estudo como um desdobramento do dualismo mente e corpo.

Segundo Brzezinski (1998), teríamos pelo menos três visões na forma de compreender currículo na relação teoria e prática: 1) uma compreensão dissociativa do currículo que seria marcada por dois momentos muito distintos na sua estruturação, sendo eles, a dimensão teórica do currículo com uma forte base na aquisição de conhecimentos acumulados ao longo do tempo; e uma dimensão prática do currículo com foco no fazer pedagógico. 2) uma visão associativa do currículo que justapõe teoria e prática (formação geral e formação específica). Nesta compreensão de currículo teoria e prática continuam separadas; e 3) currículo como expressão da visão de unidade no qual teoria e prática não aparecem separadamente. “A própria natureza de indissociabilidade da teoria e prática nega a viabilidade de se dar um ‘lugar certo’ para cada uma delas, elas se colocam numa relação dialética”. (Brzezinski, 1998, p. 169).

A efervescência que houve na sociedade a respeito da dança do Ventre em virtude de evento televisivo (novela) , abriu espaço para vários cursos inovadores no cenário didático , principalmente em São Paulo , estado que congrega 61% das praticantes nacionais, onde o intercambio com professoras de outras nacionalidades através de cursos rápidos e “workshops” se faz mais constante e permitindo o contato com novas orientações sobre a arte, como técnicas novas, mais informação sobre os ritmos e até novas tecnologias para confecção de roupas e acessórios. O retorno de profissionais que estavam praticando em terras estrangeiras também trouxe novas oportunidades de reconhecimento e informações mais atualizadas sobre o que se pratica em termos de apresentações e conduta profissional em outros países.



A prática mais abrangente do público trouxe novos cuidados antes ignorados, como nutrição, técnicas vindas da educação física, psicologia, didática mostram aos aficionados a necessidade de pluralizar o conhecimento para transmitir às praticantes mais exigentes e com maior conhecimento.

Se pensarmos na quantidade de  informação para a geração de praticantes bem orientados e de profissionais com qualidade técnica elevada e com capacidade de transmitir essa informação para novas gerações não é mais possível fazer esse tipo de educação de forma meramente artesanal , totalmente dissociada de um conhecimento pedagógico mínimo e sem um sistema compilado de matérias afins da atividade.

Não é objetivo de artigo dizer que professoras de dança do ventre tenham que possuir curso de pedagogia, longe disso, mas apontar a necessidade de um conhecimento mínimo de sistema pedagógico aliado a uma sequência correta de ensino. Se ao iniciar a aula com uma professora a aluna tiver contato com expressões como , soldadinho, escadinha, pulinho ou algo parecido e mudar de escola simplesmente nada do que aprendeu terá valor já que essas são expressões peculiares e usadas de forma diferente em vários estabelecimentos. Quando citamos exemplos como esse,  estamos nos referindo a metodologia cientifica e aplicada ao cotidiano das pessoas.

Quando no mercado atual se discute a problemática de pessoas com mínimo conhecimento de dança se mostrando a seu circulo muitas vezes como professoras denota outra questão muito importante e relevante para as profissionais que se sentem muitas vezes ameaçadas por esses procedimentos. Existem na dança do ventre situações relevantes a atividade  especifica  da Dança, como: estudos de composição coreográfica, estudos de técnicas de dança, história da dança, estudos das relações entre preparação corporal, criação e análise crítica em dança, estudos do movimento (cinesiologia, anatomia, fisiologia), dentre outros.

 No entanto, as questões que surgem no momento em que o aluno está experimentando sua docência, não têm a oportunidade de serem analisadas e problematizadas com os demais colegas e professores durante o estudo dos conceitos próprios da área. Ou seja, parte-se do princípio de que o aluno já possui as informações básicas necessárias para ensinar Dança do Ventre e por isso ele pode experimentar este lugar de professor.

 Essas questões vêm das próprias professoras que ministram suas aulas e por também desconhecerem os princípios didáticos fornecem conhecimento visando por assim dizer  de conhecimento em si próprio e não um conceito da necessidade do aprendizado constante e aprimorado além da experiência de palco necessária a sua efetivação. Através dos métodos utilizados hoje com etapas curtas a aluna considera ter atingido o estágio final do aprendizado estando naturalmente apta a ministrar aulas sem ter o conhecimento da busca , da orientação e mentorismo necessários ao ensino da dança. 

Três pontos são levantados pelas bailarinas profissionais ao abrir suas escolas, a saber: 1) a separação entre teoria e prática na preparação profissional docente; 2) a concepção de prática como mero espaço de aplicação de conhecimentos teóricos; e 3) a crença de que para ser um bom professor, basta o domínio da área que vai ensinar. Neste entendimento de ensino, as disciplinas de conteúdo específico antecedem as disciplinas pedagógicas e articulam-se muito pouco a estas. Desta forma, o que temos é “uma teoria inspirada em uma prática” (Diniz-Pereira, 1999, p. 113), com a intenção de ensinar técnicas que o tornará apto para transmitir o conhecimento, tornando-se assim um professor com caráter instrumental.

Durante o curso todos nós sabemos separar a aluna que quer  ser profissional e posteriormente professora da que quer apenas um lazer, uma forma de distração ou simplesmente fazer amigas. Tratar todas de forma igual é uma forma de  desperdiçar excelente material profissional assim como perpetuar uma serie de pessoas aptas a transmitir informações e igualmente produzir novas profissionais de alto nível técnico.



Carlos Crede
Professor e Diretor Geral da Cia. Rosas do Cairo